Blues da Piedade

•02/02/2012 • Deixe um comentário

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Cazuza

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Guerra

•28/06/2011 • 3 Comentários

Entre  gritos e granadas

Em meio a corpos e armas

Perdidos num desespero mudo

Calados diante do absurdo (…)

=

Os anjos choram e lamentam

Tanto horror sem arrependimentos

Loucura disfarçada de normalidade..

..Uma parte sólida da crueldade

=

Humanos selvagens

Com seus corpos esparramados

Sobre o barro imundo da terra

Mortos e em pedaços

Destruídos no calor de uma guerra

=

Aqui, nessa terra de ninguém

Restos de um escuro infernal

Homens lutando por um motivo qualquer

“defendendo” algo que nem sabem o que é

=

Lá fora brilham na noite escura

Fogos de dor

Num som alto de tortura

Estreando mais um palco de pavor

=

Olhamos pra frente e vemos poeira

Uma poeira densa que nubla os olhos

Respirando veneno morremos logo

O corpo não sobrevive muito tempo a tanto ódio

 

O Grande Indomável Pt. II

•07/06/2011 • 3 Comentários

La vem ele novamente

Com seu cheiro instigante de flor

Seduzindo corações inocentes com sua mágica

Amor…

-

O povo sorri e vai com ele pra longe

Caminhando nos campos floridos

Esquecendo aos poucos daquilo

Que era bom e veio antes…

-

Acomodando corações num ninho de rosas

com espinhos camuflados

No entorpecer do perfume

Nem se sente a dor dos machucados

-

Depois de um tempo

Algumas coisas ficam frias

Apaga-se o fogo

A chaleira já não chia

-

No peito ficam lugares vagos

Preenchidos com lembranças do passado

Onde tudo era bonito

Mas os olhos não conseguiam ver

Pois estavam sedentos de um outro tipo de prazer

-

E lá em cima

Nos morros altos da saudade

Onde os campos também cheiram flor

Vais encontrar a cura da vontade

de um outro tipo de amor..

-

..Aquele ‘amor-amizade’

Que enche de carinho as partes

Que um ‘amor-de-verdade’

Completa só a metade

Post feito para o site VELHOS MARUJOS  velhosmarujos.wordpress.com

Quase Sem Querer

•30/03/2011 • 4 Comentários

Ele teve medo de acordar

abrir a janela e ver o nada

estampado na cara do mundo

=

Virou para o lado e pôs-se a sonhar

Tentando viver na luz do seu escuro

Porém ele sabia que uma hora teria de acordar

Por os pés no chão imundo..

=

Caminhar nas pedras duras da estrada

Aprendendo a ver as coisas de um jeito mais profundo

Evitando dores passando por elas

Fazendo sua vida ganhar outro rumo

=

Com os pés doloridos de tanto andar

Pára e senta na metade do caminho

Pensa tanto em voltar

quanto em seguir sozinho..

E as dúvidas o fazem trocar os trilhos

Tenta então se aproximar dos abismos

=

Esperança e vontade se esvaindo

No meio das pedras, escombros.. lixo

Tanto desespero mergulhado em lágrimas

Não encontrando nenhum conforto

Nenhuma palavra..

=

Na cor do desejo

O cheiro da dor

O gosto do medo de encarar o perigo

Desejá-lo e sentir-se bem com isso

Como forma de alívio…

=

É como se lá embaixo

no fundo do precipício

Tivesse a cura pra essa dor

É como se só ele pudesse o transportar

para algum lugar mais calmo dentro de si

=

Iluminado pelo brilho cintilante de um céu sereno

Entre os pássaros, as nuvens e o medo

Ele fica horas no alto dos seus andares a observar

Tentando encontrar na fé algum motivo pra ficar

=

E quase sem querer ele ainda tenta

Vai seguindo adiante enquanto pode

Levando em frente um coração de alma sangrenta

Uma parte fria e outra nobre

Porém andar em círculos não sustenta

a vida que precisa fluir

Nessa jornada que implica grandes arrisques

É preciso pegar sua bagagem

E não se deixar cair..

Velhos Marujos

•29/11/2010 • 2 Comentários

Ouvindo o soar do apito do comandante

Acordando de um sonho desconhecido

Já sendo passageiro estreante

Incerto do próprio destino

=

Crescendo aprendendo os mistérios das águas

Duvidando e crendo no que é visto e no que é contado

Discutindo consigo mesmo com a voz de dentro

Nos pensamentos, incertezas sobre o grande barco

=

Quando o braço fica forte para remar

em busca daquilo que lhe é certo

O marinheiro sozinho se vê a nadar

dentre águas turbulentas no frio do inverno

=

Mas no caminho em que as águas o levam

encontra amigos remando para o mesmo lado

Toma coragem e então não se entrega

Pega firme os remos e segue junto

Com os parceiros do mesmo barco

=

Mesmo quando a névoa densa o ofuscar-lhe a visão

Encontrará apoio sempre

no abraço seguro de um irmão

Seguindo em frente sem desânimo

Mesmo sendo na contramão

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Ponte

•22/09/2010 • 1 Comentário

Por quanto tempo irei ficar

neste lado da calçada, sem atravessar a rua..

Por quanto tempo vou conseguir enxergar a verdade nua..

E se for possível passar para o outro lado sem ter que cruzar a ponte;

Quanto tempo irá levar para esquecer o que se via antes?

=

E se o vento me arrastar para outros corredores

Como irei lembrar das coisas vividas e o que aprendi;

Deste lado da calçada..

=

Daqui se sente a chuva mais densa e gelada

Os monstros não usam máscaras

e os feitiços não surtem efeito

Ver a verdade pura é cruel!

Porque os olhos não se enganam com a mágica de outros céus

É como andar pelo asfalto quente

sem proteção

É como nascer sozinho, sem mãe nem irmão

=

Você abre a janela e vê

as coisas que te esperam

Você engole a coragem para enfrentar

um mundo em que nada é belo

sem a cor que você pinta…

=

Assim seguem aqueles que moram

Deste lado da calçada..

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“A insanidade é apenas uma estreita ponte, as extremidades são a razão e o desejo”

Rammstein

A Alegria na Tristeza

•10/09/2010 • Deixe um comentário

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se “Alegría de la tristeza” e está no livro “La vida ese paréntesis” que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Martha Medeiros